terça-feira, 22 de julho de 2008

Cotidiano Parte II


A dor de cabeça incomoda. Então nada mais óbvio do que tomar um comprimido. O cachorro late com o movimento das ruas e eu tenho que resolver o problema. Porra, sempre sobra pra mim. E aí doidão? Já resolveu? Nem comecei ainda, meu nego. Porra, tu tá fudido ein. Rapá, nem me fala, fudido e mal pago.
Ela toma banho não se preocupando com o tempo. O sabonete desliza pela suas curvas com a naturalidade que minhas mãos tinham. Tinham? Em pensamento, em pensamento. Ela sai do banho e passa o hidratante de amêndoas. Coloca o belo vestido florido e se prepara para sair. A companhia toca. Sou eu. Ela pega o violão e vai me atender. Toca. Sou eu. Ela pega o violão e vai me atender. Estamos indo ao lugar combinado e as vezes fico puto quando me dão essas missões. Ninguém percebe o risco existente nesse tipo de tarefa. Conversamos bastante. Rimos bastante. E o que rola são amenidades. O tempo passa e chegamos ao local combinado. Aguardo apreensivo enquanto ela adentra para acertar os detalhes. Coloco a mão na cintura para prevenir eventuais desalinhos. Ela volta e diz que está tudo ok. Ufa... relaxamento normal diante do fato que irá ocorrer agora. Ela tira o violão da capa e pluga na mesa de som. A melodia amplificada toma conta do recinto e todos ficam felizes. Tudo acaba e no final peço o violão para ela cantar aquela canção que compus um tempo atrás: “não sou nada diante do acaso, não tenho medo do seu despacho, não adianta quebrar as expectativas, infelizmente garota, você não faz mais parte da minha vida”.
Vem cá mane, onde residia o perigo nisso tudo? O perigo? Ela sempre foi a mulher da minha vida e sempre não conseguimos ficar junto. Quem pediu para acompanhá-la foi um grande amigo que está noivo dela e fiquei com um receio de rolar algo indesejado que poderia culminar numa briga generalizada. É, isso é foda mesmo, mas e aí? Levou ela pra casa? Levei, mas rolou o que não deveria. O beijo? Sim. Maneiro, e seu amigo? Esquece meu amigo, ele só irá saber se você estiver gravando essa conversa. Ha, então você tá fudido. Estou a muito tempo...

terça-feira, 15 de julho de 2008

Cotidiano Parte I


Ela liga pedindo um encontro. Eu não quero encontrar ninguém. O fim de chamada contrasta com a última mordia na maçã. Quanto pecado junto minha querida. Releio uns documentos para entregar logo mais. Vejo as fitas amontoadas na mesinha da sala. Todas datadas e mais ou menos conservadas. Decido assistir uma. Ela dá voltas pelo quintal com a bicicleta como se fosse criança. E fica. E fica. Enjoado de filmar, peço-a para parar. Ele me ignora um sorriso de orelha a orelha. Tempos felizes. Tiro a fita do velho vídeo – cassete. Tenho que convertê-las para DVD. Consulto a hora. Estou atrasado. Saio de casa apressado para o trabalho. Apresento o relatório mensal do meu setor. O dia já foi cumprido. Vou almoçar e não volto para o trabalho. Resolvo dar uma volta.
Estamos tentando chegar a algum lugar juntos e o que recebe? Um ponta-pé no meio da bunda. Daqueles para deixar marca. Eu me sinto assim diante de minha última relação. Já tive o tato para tentar modificar os meus sentimentos com relação a experiência. Se é para rolar assim que role, ou melhor, se rolou assim que assim seja. Meu momento é de introspecção. Sem ressalvas ou glórias. Só quero me concentrar nos singelos afazeres do cotidiano. Sem grandes esforços ou desprendimento de energia extra. Vamos vivendo, caminhando e seguindo as regras conforme deve ser. E como deve ser? Boa pergunta...
O horário do encontro está próximo. Eu até estou no local combinado. Gostaria de saber o que ela tem a dizer. Boa e velha desculpa, o que ela tema a dizer... definitivamente não sou bom em quebrar amarras. Se livrar via fuga pior ainda. E ainda não tenho certeza de que encarar a situação é o melhor caminho. Ela chega. Bonita como sempre. Lânguida como sempre. Dengosa como sempre. Ela diz oi e me abraça chorando. Pede desculpas. Chora, chora, chora. Nos olhamos e ela tenta me beijar. Eu a afasto. Ela quer explicação, mas eu não dou. Dou-lhe um soco no nariz. Ela sangra. Empurro-a. Ela cai indefesa. Chuto suas costelas. Ela desmaia e eu sorrio. Mentira, to de caô. Não teria como fazer isso. Não agrido fisicamente ninguém. Só uns palavrões e algumas colocações impactantes para humilhar. Ah, não sei o que dizer.
O relato já encheu e o que aconteceu depois, depois resolvemos. Depois conversamos, já é? Já é não, já foi.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Vertigem


O corpo está imóvel. A tentativa de movimento é em vão. Não entendo. Tento mover os braços. Negação; tento mover as pernas. Negação. Abro os olhos com dificuldade de entender o porquê da abstinência. Visão turva. Um corpo cinza, disforme, bailando no prisma. A mente não filtra as cores. Perto, longe. Cadê o corpo? O som se propaga. Chave, roupa, cinto, elástico. A respiração descompassada. Agora que percebo isso. Onde estou? Sinto frio. Moscas pousam no meu corpo. Será mosca mesmo? Algo macio nas minhas costas. Tento jogar-me para esquerda. Sem forças. Mexer nos lábios. On... on... on... Onde estou? O cinza toma minhas entranhas. Desespero. Algo macio percorre meu rosto. – Você é bom! Uma frase. Bom? Não consigo me mexer. Não consigo entender. Os dedos dos pés se movem. Os dedos das mãos se movem. Viva! Formas, formas. Uma mulher? Uma mulher! Indo embora. Calma ae, não vá! – Tenho que ir, amanhã acordo cedo, foi muito especial hoje, te amo, tchau! Ainda não entendo. Movo para esquerda. Consigo. Minha perna se move. Coloco os pés no chão frio. Arrepio. Frio. Estou pelado? Por que? Caminho. Reconheço móveis. Reconheço cômodos. Banheiro. Torneira e pia. Água fria. Rosto ensopado. Mente no tranco. Eu transei e gozei. Com a mulher da minha vida...

terça-feira, 13 de maio de 2008

Cancioneiros


Diante de bons motivos para apalpar sua carne
Me deparo com pele mórbida, porém oleosa
A morte que dá tanto tesão
A vida dos desamores perdidos na atração
E na sua tentativa desesperada de espairecer
Eu como pára-raios esperando tudo acontecer
E tudo vira piada
Construída na tábua rasa
E no final eu vou pra casa
Ficar com o travesseiro sozinho
Já tenho um imenso ninho
Com sentimentos alheios
E uma gaiola de ferro
Só com desesperos
E um número para ligar
Quando eu enjoar dos erros
E depois de analisar
Vivenciar
Experimentar
E até mesmo
Uivar
Essa é boa
Só me resta cantar a canção
Canção do lugar-comum do coração

sábado, 3 de maio de 2008

10 Poemas para alguém gostar de mim.




I

Hoje acordei com vontade de escutar aquela música
Aquela mesmo que te mostrei outro dia
E você não de nenhuma importância
Ingrata
Se eu acreditasse que nessa vida tudo passa
Eu te daria um foda-se
Mas porra
Sua presença ainda me incomoda
Assim como a Tv ligada ainda me incomoda
Vou apagar seu número do meu celular
A sua foto vou rasgar
Vou fazer a barba e conseguir alguém diferente
Para transar...

II

Tá gelado
E eu tomando um vinho
Fico bêbado
Enjôo
E vomito a casa toda
Deito no chão
E imagino uma mulher nua
Bato uma punheta
E a lágrima sai dos meus olhos
Durmo
E quando acordo
Tenho que limpar a sujeira
Só derrota
Preciso de alguém do meu lado.


III

Ando com prisão de ventre
E ninguém gosta de mim
Ando comendo mal
Mas nem sempre foi assim
O óbvio seria uma mulher para cozinhar pra mim
Mas aí eu seria machista
Pois cozinhar eu mesmo poderia fazer
Aí que tá
Ter prisão de ventre
Comer mal
E não saber cozinhar
É suficiente para conquistar mulher?
Talvez seja
Mas hoje prefiro
Resolver meus problemas imediatos
É mais fácil.


IV

Depois de ter marcado com ela
Mais uma vez
E ela ter furado
Como sempre
Eu me pergunto
Com quantas objeções
Eu deveria tomar vergonha na cara?
Já poderia ter partido pra outra
A bastante tempo
Resolvo sentar e contemplar
O rebolar
O caminhar
O beijar
Daquelas várias mulheres que estão bem ali
E eu arranjando uma estratégia para conquistar alguém
Putz
Tenho que para de ficar me lamentando
Essas porras não gostam de coitados.


V

Hoje eu acordei com uma imensa vontade
De dar uma foda.
Sexo para ter sentido
Tem que ser com carinho
Hoje o amor deve ter algum sentido
Mas eu quero mesmo é foder
Até as pernas bambearem
O discurso tem que ser mais coerente
Um bom sorriso para mostrar os dentes
Um agrado
Um afago
E um dinheiro para ir pro motel
Tem que parar pensar só em sexo
E tentar gostar de alguém de verdade
Só que hoje o que é verdade
É meu pau duro
E a vontade de foder
Ae, assim você não conquista ninguém.

VI
Ofereço o café
Pois estou com azia
Você não aceita
Diz que está sem açúcar
Diz que sou sem graça
Diz que não quer mais nada
Maldita azia
Vou a farmácia comprar um comprimido
E quando volto
Você já tinha ido embora
Pego o café e jogo fora
E meu sentimento brinco já não é de agora
O problema é esperar a campainha novamente tocar
E eu ficar enjoado de esperar


VII

Que merda de cigarro fedorento
E eu só agüento
Porque é você
Porra, não era para ser assim
Eu não suporto cigarro
Mas ainda suporto você assim
E aí
Quando irá mudar?
Quando vai arranjar um jeito para compensar?
Já não basta nosso sexo intenso?
Já não bastam carinhos, afagos e lamentos?
Já não basta?
Já não basta?
Apaga logo esse cigarro
Vai
Eu deixo você dar a última tragada
Não, não me deixa sem graça
Tava na cara que ia embora
Pois eu não mando em ninguém


VIII

Diante de bons motivos
De boas razões
De boas lições
De boas coisas
Para alguém ficar comigo
O que eu posso dizer?
Você
Conhecer
Perecer
Permanecer
Estático
Diante de tantos bons motivos
Ainda me preocupo
Se um dia ficarei sozinho
Talvez a preocupação seja a maneira
De achar que os bons motivos
Não sejam
Não sejam
Algo tão verdadeiro assim
Deixa os bons de lado
E ao menos tente
Tente me conhecer.


IX


Chego cansado do trabalho
E procuro a cama
Não existe cara feia
Pois moro sozinho
Tiro um cochilo
Mas preciso acordar para esquentar o jantar
Ninguém reclama
Eu moro sozinho
Comida insossa
Tv sem graça
E ninguém sente falta
Todo mundo sabe que o moro sozinho
Até gosto do ambiente
Dá para escutar meu eco
E o som da casa
Contrasta com minha solidão
Sem telefone
Sem campainha
Mas com muito sono
Então vou dormir
Pois moro sozinho
E ninguém irá me perturbar.


X


Gemidos furtivos
Que eu roubei de você
Líquidos escondidos
Que eu fiz você despejar
E lamber
Vi você crescer
Fiz você sentar
E de quatro eu pedi para você olhar
Quantos tapas
Quantas disputas
Quantos rachas
E despertávamos nus debaixo da escada
E o quarto trancado e o som alto
Para abafar seus xingamentos
Ninguém pode saber
Que você fala palavrão
E derrepente tudo acaba
E eu pensando que eu me esforcei
Te perguntei onde eu errei
E você voltou para a sua negação
Já tive tantos motivos para alguém gostar de mim
E tudo acaba terminando assim
Assim como?
Nada a declarar.

terça-feira, 29 de abril de 2008

O mundo dos restos.


Não gosto de juntar restos de comida. O nojo é o lugar comum quando se trata de restos. Mas tenho que juntar e limpar para depois sair e trabalhar. Hoje não. Hoje vou para a praia. Uma falta a mais ou a menos e vou continuar ganhando uma merreca. Vou para a praia pelo caminho habitual e sou surpreendido por uma mulher: - Tá indo para a praia? – Tô. – Posso ir contigo? – Pode sim. Observo-a. Bonita. Pretinha. Seios médios. Bunda empinada. Eh, descrição de conto erótico. Com exceção da “pretinha”. Pergunta se eu moro por aqui. – Sim, eu moro. – Mas hoje é quinta feira, deveria estar trabalhando. – Ó, você também. Ela ri. A descontração favorece a caminhada. – Trabalha em quê? – Sou educador e você? – Sou psiquiatra. – É? – É, por que o espanto? – Força do estereótipo. – É, tinha percebido, meu corpo dá essa impressão, né. Papo estranho. Ser provocado pela manhã não faz muito sentido. Gostei dela mesmo assim. E assim caminhamos em direção à praia. Ela pergunta qual é a minha motivação em ser educador. – Concurso Público. Eu pergunto qual é a motivação dela em ser psiquiatra. – Saber a motivação dos outros. - E o que concluiu? – Que a praia é muito bonita. Resposta evasiva. Talvez ela esteja me testando. Quer ver se eu sou inteligente. Não estou a fim de perguntar mais nada. Vamos pra praia. Vamos pra praia. Ela quer caminhar. Eu quero contemplar o mar. – Está cansado da rotina, né? – É, estou. – Quebrei sua expectativa? – Expectativa? – Você gostou do meu corpo e eu tentei mostrar que sou mais do que um corpo bonito, e você não gostou. – Você tem sempre certeza dos seus diagnósticos? – Talvez. – Ah, tá bom, quer sentar? – Quero. Ela me explica sobre os movimentos constantes das ondas e a tentativa de adequação da psiquê para ser similar às ondas. Ela também me explica que gosta de provocar os homens a partir da imagem comum da mulher negra e que a quebra de expectativa gera frustração, afastamento ou paixão avassaladora. – E o meio-termo, não cogita? – Bom, a provocação é para os extremos. E então, ela me mostra o seio esquerdo. Fico abismado. Fico excitado e isso fica perceptível. Seio médio, durinho, redondinho, um tesão, ummmmmmmmmmmmmmmm. – Tá vendo, sua excitação é visível pelo aumento de sua saliva e pelo óbvio enrijecimento do pênis, facilmente perceptível, mas o que eu queria te mostrar era realmente meu seio? – É, parece que sim. – Aí que você que se engana, lado esquerdo do peito, é o coração! – Porra, que provocação é essa, não tem medo de eu te agarrar aqui? A praia está deserta. – Não se esqueça que sou psiquiatra e entendo de comportamento humano, com certeza você não vai me agarrar. – E se você estiver equivocada? – Aí já era. Fico sem ação. Ela tem razão. Chutar o balde com certeza passa pela minha cabeça, mas não incluiria estuprar mulheres. E ainda mais mulheres negras. Agora ela vai caminhar. Eu continuo sentado imaginando a situação que beirou o absurdo. É negão, talvez não. Talvez você aprenda algo sobre continuidades.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Na medida do caos...





O que estamos esperando, hein? Que os homens e mulheres inteligentes resolvam o problema de maneira simples e civilizada. Mesa de bar é foda, pois assuntos de ordem mundial surgem com a facilidade de uma golada na cerveja mais barata. Nem é tão barata assim. Simples e civilizador. A proposta de civilização sempre caminhou com a prática de extermínio. É? A bebida é um processo de extermínio. Minando o corpo. Assim com o sexo. Sexo? Pára, pára. O sexo não mina ninguém. Fica 12 horas trepando direto, então. Porra, 12 horas? O contexto etílico dissolve toda e qualquer tentativa de construção de conhecimento. Vem cá, ultimamente você anda muito formal, não consegue mais atingir a sua classe de origem. Classe de origem? É aquela que nos remete a nossa infância. As coisas evoluem. Evolução não é esquecimento. Evolução não é esquecimento. Vou me lembrar disso quando não me reconhecer no espelho. Meus pensamentos estão fragmentados, assim como o papo reto que já fez curva a bastante tempo. Assim como minha cor de pele ainda é motivo de desconfiança por parte das mulheres que tento conquistar. Assim como... ah, sei lá, tenho que buscar algum objetivo nisso tudo. Acorda, acorda rapá! O que, o que? É hoje! É hoje o quê? É hoje que vamos tirar a barriga da miséria. E como vamos fazer isso? Fazendo aquela correria básica. E se a gente for preso, irmão? E se a gente conseguir fazer a correria irmão? Tá vendo. Se não houver riscos, já era o bagulho!

O caos talvez seja a melhor garantia de que as coisas realmente mudem. O fio da meada pode garantir a decisão que há muito tempo pensamos em tomar. É o pensamento que está caótico e não traz nada de novo ao contexto e é a ausência do novo que talvez cause a confusão que te faz pular da cama e chutar o balde. Apesar que a proposta de chutar o balde é para no máximo conseguir uma fratura no pé, porque o balde com certeza vai estar cheio de cimento. Ai! Você pensa e acredita no que quiser. Eu assumo o personagem que desejar. Isto é ruim cara! Isto é ruim. Parece que não tem personalidade. Eh, pareço? É, parece! Ser alguém com personalidade ou ser alguém sem personalidade, eis a questão! Não liga para que esse doido diz, não... Você come gente pra caralho desse jeito! Olha só o canibal.

Estou sentado escrevendo e a observo. Melhor. Observo seu tênis desamarrado. Ela também percebe e desce para amarrá-lo. Tenho que parar de observar essas coisas. Elas acabam ficando sem importância no ambiente. Tá tudo muito estranho e qualquer tentativa de explicação transforma tudo em uma grande merda. Tá certo que todo esse emaranhado só tem um objetivo. Pelo menos é objetivo que quero alcançar. É todo caos que tiramos a força necessária para se mudar. E precisa-se mudar algo. Na verdade, os desejos reprimidos quando liberados são o contexto de provocação do caos reinante dentro da psique dele ou dela, sei lá. Provocações constantes, confissões que não têm nada de comum. O quebra-cabeça se for montado pode provocar a revolução. Pode.